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Disilusão e Surpresa: Uma reflexão sobre a Baixada Fluminense

Joe Beck e Carla Castanha (Trad.)
Eu não tinha certeza do que esperar quando eu saí do avião no Rio de Janeiro. Já faz dez anos desde a última vez em que estive no Brasil, quando visitei São Paulo com a família e em circunstâncias drasticamente diferentes. Eu entendi que estávamos programados para ficar em um lugar historicamente estigmatizado chamado Baixada Fluminense, mas além disso, eu não tinha ideia do que as atividades do dia a dia envolveriam além do esboço do que a equipe do The Cost of Opportunity fez no ano passado.
Joe (o terceiro da esquerda de encima) e outros participantes do Bass fazem caminhata no Parque Municipal de Nova Iguaçú
Como eu nunca participei de uma viagem de pesquisa antes, não tinha certeza do trabalho que estava qualificado para fazer. Independentemente da minha carga de trabalho, fiquei feliz por poder praticar português e visitar o país dos meus antepassados. Não poderia prever tudo o que eu aprenderia. Antes de tudo, vi de primeira mão os fortes contrastes entre a rica, vibrante e turística meca que é o Rio de Janeiro e a região vilipendiada, estigmatizada, que é conhecida como Baixada Fluminense. A expressão de choque de um membro da equipe do aeroporto quando eu disse a ele onde eu passaria meu tempo no Brasil revelou exatamente como a Baixada é percebida – um lugar para se envergonhar e esquecer.
A Baixada foi significativamente mais pobre do que o Rio, resultado em grande parte do legado da escravidão. É composto por uma alta proporção de pessoas de ascendência africana em oposição aos conhecidos bairros do Rio, como Copacabana e Ipanema, que são de maioria branca.
Esse contraste levou a discussões sobre raça que me ensinaram aspectos do Brasil que eu nunca conheci. Por exemplo, no Brasil, a concepção de raça é muito mais fluida do que nos Estados Unidos. A identidade racial é mais um gradiente de cor em oposição a categorias distintas de branco ou negro. Uma pessoa no Brasil pode se identificar como pardo (de descendência africana parcial) ou negro (principalmente descendente africana), enquanto que nos Estados Unidos uma pessoa seria em grande parte considerada negra ou branca, e geralmente não em uma posição intermediária. Embora alguns dediquem suas vidas a revelar a injustiça racial, muitos brasileiros, de maneira problemática, acreditam que o racismo não é uma questão no Brasil ou não é um problema que eles mesmos defendem. A realidade, no entanto, é que as pessoas com um tom de pele mais escuro enfrentam muito mais preconceitos do que outras, e muitas pessoas, conscientemente ou não, perpetuam a discriminação.
Antes da viagem, pensei em mim mesmo como alguém informado sobre assuntos brasileiros, incluindo tópicos como raça. Fiquei surpreso com o quão ignorante eu realmente era. Minha avó brasileira praticamente mora em casa comigo, falo português em casa e assistimos à Globo (uma rede de notícias brasileira). Pelo que eu entendia, o Brasil era um modelo que os Estados Unidos deveriam imitar para eliminar a intolerância racial e a hostilidade. No entanto, eu sabia pouco sobre a verdadeira natureza de como os brasileiros de pele mais clara oprimem sistematicamente outros indivíduos de pele mais escura.
Outro aspecto da viagem que me deixou uma grande impressão foi o impacto do trabalho que o The Cost of Opportunity  teve sobre outras pessoas na Baixada e, em particular, o trabalho do educador comunitário e rapper Dudu, bem como o da Stephanie Reist. Nós fomos a vários locais para exibir o filme que Dudu e Stephanie produziram no ano passado. O filme detalha as barreiras à educação superior as quais muitas pessoas que frequentam a universidade recém-inaugurada enfrentam todos os dias.
E agora que este direito recentemente concedido está sendo atacado pela administração de Temer, as pessoas na comunidade estão respondendo feroz e emocionalmente. Muitas pessoas a quem mostramos o filme choraram porque se sentiram incisivamente atacadas pelo governo federal, no direito concedido pela Constituição brasileira ao ensino superior de qualidade. Muitas vezes eu me encontrei com um nó na garganta quando observava o efeito do filme sobre os estudantes do Ensino Médio na comunidade, enquanto falavam sobre suas próprias lutas por viverem na Baixada e, finalmente, que tentavam melhorar suas vidas através do ensino superior.
Vendo a importância do trabalho que o time do The Cost of Opportunity está fazendo me fez refletir sobre como eu quero contribuir com o projeto no futuro. Estou interessado em analisar os dados que ajudariam a revelar os impactos econômicos da universidade na Baixada. O que ficou claro no final das minhas duas semanas no Brasil foi que o trabalho que fazíamos era maior em magnitude do que mera pesquisa acadêmica e, de fato, transcendia a esfera acadêmica. Parecia que a contraparte brasileira da equipe de pesquisa usaria muitas das descobertas que trabalhamos em Duke como parte de uma operação política maior. Espero que o que eu contribuir para o grupo em termos de resultados acadêmicos possa ser usado como prova dos efeitos benéficos das universidades na luta pelo aumento do acesso à educação.

 


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